quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

CAMINHOS

"Esse mundo da não-morte, esse mundo da sabedoria e do discernimento e da compaixão, eu creio que é isso que todos nós buscamos. Temos diversos ecos com os ensinamentos do Evangelho.

A primeira frase de Jesus é: Metanoie-te. Que muitas vezes é traduzido por: Convertei-vos. Como uma tradução da palavra hebraica Teshuvá, que significa voltar para si mesmo, voltar para sua terra.
Os antigos diziam que a conversão é voltar daquilo que é contrário a nossa natureza para aquilo que lhe é próprio. Reencontrar em nós essa natureza do Cristo. Essa natureza que é ao mesmo tempo luz e compaixão.
Mas qual caminho tomar?
E é aqui que a palavra Metanoie-te é importante. Assim como na palava metafísica, o radical meta significa além, por além, do mental. 
Metanoie-te é um convite a irmos além do mental. Ou seja, na maior parte do tempo vivemos em nossos pensamentos, não vivemos a realidade, vivemos na realidade interpretada; sejam as interpretações positivas, negativas ou neutras da realidade. E trata-se de irmos além dessas representações, e entrarmos num olhar puro, virgem, de todas as projeções; um olhar esvaziado de todas essas projeções que projetamos sobre o real. Não vemos a realidade, mas sim as imagens, as ideias, julgamentos sobre a realidade, e trata-se de sair dessa ilusão. Me lembro de um encontro que tive com Dalai Lama, e lhe perguntei o que era Nirvana, e ele me respondeu: Ver tudo tal como é.
Confesso que num primeiro momento isso não me fez voar tão alto. Mas é a realidade, nós não vemos as coisas como elas são, e jamais vimos; só conseguimos ver através de nossas projeções, atrações, repulsões, todas essas memórias do passado. 


Aqui temos uma palavra do Evangelho, e que também encontramos seis séculos antes de Cristo, no cânon budista, quando Jesus diz: Isso é, Isso é. Isso não é. Isso não é. Tudo o que falamos a mais, vem do mal, vem do mental. Mental e mentira vem da mesma raíz. Então, trata-se de vermos as coisas tais quais elas são. (...)

O texto da Vulgata diz: Es es, non es, non es. ( Aquilo que é, é; aquilo que não é, não é.) E tudo aquilo que falamos a mais são sobreposições que nos afastam do real.

Metanoie-te, trata-se de purificar nosso olhar. Olhar com clareza, com lucidez. E será neste olhar lucido que poderemos amar verdadeiramente, que nós podemos amar além das nossas atrações e repulsões, que faz que sejamos capazes de amar inclusive nossos inimigos. Isso não é algo natural, uma vez que temos dificuldade de amar nossos próprios amigos, amar aqueles que nos amam é normal, mas amar aqueles que não nos amam isso se supõe uma enorme liberdade, e será através dessa liberdade que o Evangelho e o Cristo nos irão conduzir. 
Esta liberdade do qual Ele nos dá testemunho.
- Perdoai-os, eles não sabem o que fazem

Nós não sabemos o que estamos fazendo, não sabemos o que estamos dizendo, não sabemos o que estamos pensando. Nós precisamos desta compaixão, para não fecharmos os outros em seus atos ou palavras. Esta é a própria experiência do perdão: não fechar o outro dentro de seu karma;não fechar os outros dentro das consequências negativas de seus atos; e também nós mesmos, não nos fecharmos nas consequências negativas de nossos atos. Aqui há esta noção importante do karma, enquanto o encadeamento de causas e efeitos.

Nada daquilo que fazemos é sem consequências, e isso nos trás o sentido da responsabilidade, e é a isso que a tradição judaica e a tradição cristã chama de justiça, justiça imanente. Colhemos as consequências de nossos atos. Essas são palavras do Evangelho - Colhemos aquilo que semeamos. 
Existe então uma justiça, mas existe algo mais profundo que a justiça, esse fundo de misericórdia, esta possibilidade de perdão, que abre uma saída para nosso karma, onde não ficamos completamente fechados nas consequências de nossos karma, e este despertar não é somente para a próxima vida, mas que pode ser vivido nessa própria vida.

Os dois ladrões que foram crucificados ao lado de Cristo me surpreendem. Um deles diz: Salve a ti mesmo. E ele continua a insultar o Cristo. O outro diz: Estamos vivendo aqui a consequência de nossos atos, mas este homem no meio de nós nada fez de mal. E neste momento ele se volta para o Cristo e diz: Lembre-se de mim no teu ReinoLembre-se de mim no Reino do teu Espírito. E neste momento Jesus lhe diz: Hoje mesmo estarás comigo no paraíso. Ele não diz, que ele deverá vir numa próxima vida, para purificar as consequências dos seus atos. Mas, através deste ato de fé, de confiança, no poder do amor e da misericórdia, você poderá entrar hoje mesmo na consciência do despertar.(...)

Esse espaço em nós da não-morte, esse espaço em nós que já é livre, esse espaço em nós que já está salvo, em hebraico 'estar salvo' quer dizer respirar largo, amplo - Yesha. No nome de Yeshua ( Jesus em hebraico ) existe esta mesma raíz - Yesha . O nome de Jesus ( Yeshua ) significa - Deus salva. Quando invocamos o nome de Jesus, ( Yeshua) nós invocamos em nós este espaço de liberdade, de libertação, é importante lembrarmos disso; Este espaço já está aqui.

Me lembro que, quando perguntaram a Sri Ramana Maharshi para onde vais após a morte, e ele responde: Eu vou para onde Eu Sou desde sempre. 

E esta também é a resposta do Cristo: Lá onde Eu Sou também quero que vocês sejam. Esta consciência na qual me encontro, esta relação com a Fonte, que na minha linguagem chamo de Pai, esta relação com o princípio de toda existência, também é aí que vocês podem estar.

É importante lembrarmos que em algum lugar dentro de nós mesmos, já estamos despertos, já estamos salvos. Trata-se de tomarmos consciência deste dom que nos é dado, a isso chamamos de Graça, é algo gratuito, algo que não merecemos, mas uma realidade a qual podemos nos abrir. 

A isso na tradição cristã chamaremos de Sabedoria, ou seja, o conhecimento do Ser, o conhecimento do espaço infinito que está em nós. Este infinito é fonte de bondade. São palavras de Jesus: O sol brilha sobre os bons e os ruins; sobre o ouro e sobre o lixo.

Trata-se de despertar em nós este sol, esta presença, e todos os ensinamentos do Evangelho tem por objetivo este despertar; assim como todos os ensinamentos de Buda, tem como objetivo o despertar para essa bondade primordial.
Creio que as últimas palavras de Buda foram: Seja uma luz para si mesmo. Não sigam apenas o meu ensinamento, mas sejam uma luz dentro de vocês."

(Jean- Yves Leloup)